A polícia da Itália está obtendo resultados espetaculares desde que, três anos atrás, passou a usar ferramentas de inteligência artificial no rastreamento e na recuperação de obras de arte roubadas no país. Até agora, o sistema já ajudou a equipe da Unidade de Proteção do Patrimônio Cultural a resgatar mais de 300 pinturas e estátuas valiosas e mais de 165 mil moedas, medalhas, cartas, manuscritos, objetos religiosos, selos e cartões cujo valor supera US$ 226 milhões, de acordo com uma reportagem publicada ontem pela BBC britânica.
Em um dos casos, os policiais fizeram uma visita de rotina a uma feira de antiguidades em Parma e fotografaram as obras de arte enquanto caminhavam. As imagens foram carregadas em um banco de dados interno e apenas algumas horas depois o sistema de IA sinalizou a foto de uma pintura que mostrava uma jovem vestida de azul e vermelho segurando um pergaminho parcialmente desenrolado, com um alerta: a obra havia sido roubada em 2004 de uma igreja em Nápoles. No dia seguinte, os policiais apreenderam a pintura e comemoraram mais uma vitória da IA.
Segundo o tenente-coronel Salvatore Rapicavoli, da Unidade de Proteção do Patrimônio Cultural, houve um aumento exponencial no número de recuperações depois que a polícia passou a aplicar recursos de IA desenvolvidos especialmente para essa finalidade. Além disso, esses avanços na Itália abriram caminho para o uso de aprendizado de máquina em investigações de roubo de arte em outros países e podem revolucionar o combate global a esse tipo de crime.
A origem desse trabalho remonta a 1969, quando a polícia italiana criou um banco de dados de itens culturais roubados no país. Constantemente alimentado por relatórios das autoridades policiais de proteção à cultura e da alfândega, o banco de dados se tornou o maior do mundo, com mais de um milhão de itens.
O trabalho, contudo, era lento e complicado. Para encontrar obras de arte roubadas, era preciso visitar feiras, lojas de antiguidades e leilões e cuidar da impressão e da digitalização das imagens fotografadas para compará-las com o acervo do banco de dados, uma a uma. “Eu me perguntava como a tecnologia poderia contornar esse problema”, disse Rapicavoli, que além de policial tem formação como engenheiro de TI.
Em 2020, a equipe de Rapicavoli desenvolveu um algoritmo de IA que deu origem ao Sistema de Detecção de Obras de Arte Roubadas (Swoads), capaz de identificar sinais digitais ocultos nas obras, combinando semelhanças entre tonalidades de cor e silhuetas aproximadas, e obras alteradas depois de serem roubadas. Depois de vários aperfeiçoamentos, o sistema Swoads já consegue rastrear catálogos e novos uploads continuamente, dia e noite, vasculhando a internet e comparando milhões de imagens com o banco de dados de arte roubada.
“Em 2026, por exemplo, o mesmo software permitiu que a polícia de Turim recuperasse uma pintura de Filippo Palizzi, Riposo Della Pastorella, roubada de uma galeria de arte em junho de 1972, em um episódio tão grave que o estabelecimento permaneceu fechado por mais de 30 anos. Embora a pintura estivesse desaparecida há décadas, perdida nos bastidores de mercados de arte e feiras comerciais, uma das buscas rotineiras a encontrou à venda no site de uma casa de leilões”, disse a reportagem da BBC.
Salvatore Rapicavoli lembrou que o sistema está longe de ser perfeito e não distingue, por exemplo, uma pintura original de uma cópia. Porém, sua equipe, que conta com mais de 300 integrantes, continua atualizando o software com dados de novas listas de vigilância, para incluir até mesmo manuscritos ucranianos raros e ícones que provavelmente serão saqueados durante o conflito com a Rússia, para que o sistema possa permanecer em alerta máximo. O grupo italiano também está trabalhando na criação, até 2027, de uma rede de identificação conectada internacionalmente.