A inteligência artificial já entrou na rotina de milhões de pessoas, mas o domínio sobre ela ainda pertence a poucos. A IA virou assistente, conselheira, buscador, colega de trabalho e vitrine de consumo. Ainda assim, boa parte da população aceita respostas automáticas com a confiança de quem consulta uma autoridade. A diferença entre aproveitar e obedecê-la tende a definir uma parcela relevante da desigualdade nos próximos anos.
Ano passado, um tempo distante na atual escala da IA, estudos já registravam uma virada de comportamento. Os usos da inteligência artificial generativa se dividiam quase igualmente entre necessidades pessoais e profissionais, com cerca de metade deles atravessando as duas áreas. Hoje, esse sinal parece óbvio. As pessoas usam a IA para escrever, estudar, resumir, programar, comparar preços, planejar viagens, organizar tarefas e pedir conselhos.
A escala impressiona. A Stanford University, em relatório de 2026, aponta que a IA generativa chegou a 53% de adoção populacional em três anos, ritmo superior ao do computador pessoal e da internet. Adoção alta, porém, pode parecer maturidade. Em IA, pode ser exposição. Usar um chatbot para obter resposta rápida exige pouco. Saber formular contexto, avaliar fonte, perceber viés, proteger dados e aplicar o resultado requer formação.
Uma pesquisa deste ano do instituto estadunidense Pew Research mostra que 49% dos adultos dos Estados Unidos usam chatbots de IA, ante 33% em 2024. Também revela quais sistemas aparecem no uso cotidiano. ChatGPT chega a 44%, Gemini a 24% e Copilot a 17%. Meta AI alcança 14%, Grok 8%, Claude 6% e Character.ai 3%. A lista importa menos pelo campeonato entre marcas e mais pelo comportamento. A IA virou interface. Muitos já procuram respostas em conversas, em vez de páginas.
O consumo revela a mesma inflexão. Um relatório setorial projeta que o tempo global em aplicativos de IA generativa passará de 17,2 bilhões de horas no primeiro semestre de 2025 para 36 bilhões no primeiro semestre de 2026. A fonte também registra aumento de referências de IA generativa para sites de compras entre o quarto trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2026. Antes, a pessoa buscava, comparava e escolhia. Agora, muitas vezes, pede uma recomendação e recebe uma síntese pronta. Conveniente, sim. Perigoso, quando ignora critérios, interesses comerciais e limites do modelo.
No trabalho, a discussão exige menos espuma e mais método. Uma análise de mais de 100 mil conversas no Microsoft 365 Copilot mostra que 49% delas apoiam trabalho cognitivo, como análise de informação, solução de problemas, avaliação e pensamento criativo. Cerca de 50% dos usuários citam controle de qualidade da saída da IA como habilidade mais importante, e 46% citam pensamento crítico. Liberar acesso à IA sem treinar julgamento equivale a instalar uma máquina de decisões provisórias em escala. O ganho vem quando a organização define boas perguntas, limites, revisão, governança e responsabilidade.
No Brasil, o desafio fica mais agudo. Um levantamento do CETIC (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), no Núcleo de Informação e Coordenação, mostra que 32% dos usuários de internet no país, cerca de 50 milhões de pessoas com 10 anos ou mais, já usam IA generativa. O mesmo estudo revela uma diferença incômoda. O uso chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E. Entre usuários com ensino superior, alcança 59%. Entre aqueles com ensino fundamental, fica em 17%. O país pode ampliar o acesso a aplicativos e, ao mesmo tempo, aprofundar a desigualdade de autonomia. Quem sabe perguntar melhor aprende mais, trabalha melhor, compra melhor e decide com maior repertório.
O analfabetismo em IA, decorrente também da falta de acesso à internet, será mais sutil que o analfabetismo digital clássico. A pessoa conectada parece incluída. Ela abre o aplicativo, conversa, recebe texto, imagem, plano, resumo e recomendação. Por fora, há participação. Por dentro, pode haver dependência. Porém, falta letramento para distinguir resposta provável de resposta verificada, síntese útil de conselho frágil, automação legítima de transferência irresponsável de decisão.
Empresas, escolas e governos precisam tratar o letramento em IA como competência básica. Isso inclui ensinar formulação de perguntas, checagem de fontes, privacidade, ética, revisão humana e noções de funcionamento dos modelos. O futuro próximo premiará quem souber pensar com sistemas inteligentes. Deixará de recompensar quem terceirizar o próprio juízo.
A nova divisão digital separa quem sabe pensar com IA de quem apenas acredita nela. Esse é o dado social por trás do fascínio tecnológico. A inteligência artificial pode ampliar a capacidade humana. Porém, sem letramento, ela amplia, antes de tudo, a distância entre pessoas.
Roger Finger é head de Inovação da Positivo Tecnologia