Há alguns meses o Google afirmou que sua ferramenta Tradutor já era usada para traduzir 1 trilhão de palavras por mês, sem contar outros sistemas alimentados por inteligência artificial, como DeepL, Microsoft, Claude, ChatGPT e Gemini. Esse número de dimensão quase incompreensível dá uma ideia do rápido avanço da tradução automática e de sua evolução em qualidade, o que, para muitos, representa uma ameaça séria a toda uma categoria profissional e à credibilidade do conteúdo, especialmente nas áreas médica, científica, jurídica, literária e em outras que tratam de questões relevantes.
Tudo isso leva a uma pergunta inevitável: com a IA cada vez mais aperfeiçoada, até quando a intervenção humana será mesmo necessária na tradução? Para os tradutores profissionais, a resposta é óbvia: sempre será, já que a sutileza de cada idioma jamais é inteiramente percebida por uma máquina.
Ao abordar o tema, uma matéria da BBC britânica usou como exemplo a expressão francesa “Il pleut des cordes”, que, literalmente, significa “está chovendo cordas”, ou seja, chove forte. Em inglês, poderia ser dito “it’s raining cats and dogs”, o que complicaria ainda mais o trabalho da IA.
Ouvido pela BBC, François Yvon, diretor de pesquisa especializado em tradução automática do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), disse que esse é o tipo de expressão idiomática que impõe um dilema à IA. Porém, ele lembrou que pode ser apenas uma questão de tempo até que um modelo de IA bem treinado entenda que não estão caindo cordas do céu, e sim chuva. “Mas será que vai encontrar o equivalente quando for traduzido para o indonésio?”, questionou Yvon. Também é interessante imaginar como uma IA traduziria alguns dos termos criados por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.
Jonathan Zimmermann, fundador da Open Knowledge Association, uma organização suíça que traduz artigos da Wikipédia, disse à BBC que o resultado obtido por máquinas ficou tão bom que dispensar completamente o trabalho humano se tornou uma opção viável e uma tentação real. “Há dois ou três anos, com ferramentas como o DeepL, nossos tradutores ainda reescreviam uma boa parte de cada rascunho. Hoje em dia, o texto muitas vezes não precisa de nenhuma correção. Portanto, a questão não é mais se a tradução por IA é boa, pois claramente é, mas sim se é boa o suficiente para eliminar a intervenção humana”, destacou.
Por enquanto, tudo indica que ainda não é boa o suficiente. Ariella Baltié, uma especialista na versão de documentos jurídicos do francês para o inglês, contou à BBC que, recentemente, foi contratada para revisar um texto traduzido por IA e encontrou erros graves. Em um deles, “Madame X, épouse Y” (sra. X, esposa de Y), havia sido traduzido como “A sra. X casa-se com Y” – ou seja, a IA confundiu um substantivo com um verbo, mudando completamente o significado da frase.
Na área de saúde, a precisão pode ser uma questão de vida ou morte, como explicou Carol Bereuter, especialista em traduções médicas: “As unidades de medida para dosagens e exames de sangue frequentemente incluem letras gregas. Em uma revisão que fiz, percebi que a letra grega μ havia sido traduzida pela IA como mili (um milésimo) em vez de micro (um milionésimo). É um erro grave. Se você administra um miligrama a alguém quando deveria ser um micrograma, está administrando uma dose mil vezes maior”, destacou.
François Yvon, o diretor do CNRS, acredita que boa parte desses erros será corrigida nos novos modelos de IA: “Veremos sistemas de tradução cada vez mais capazes de avaliar o próprio trabalho e se autocorrigir usando diferentes ferramentas de IA simultaneamente: uma para fazer a tradução, uma segunda para criticá-la e uma terceira para produzir uma nova versão, por exemplo. Mas o verdadeiro avanço só acontecerá quando esses sistemas forem capazes não apenas de traduzir, mas também de nos avisar quando não tiverem certeza”.