Bloquear o Discord não acaba com o crime, só apaga o mapa de onde ele acontece
O problema nunca foi só a plataforma, mas sim a distância entre “onde os filhos estão” e “o que os pais enxergam”. Bloquear o aplicativo não fecha essa distância, apenas empurra a criança para o próximo ambiente, que os pais também não conhecem
Recentemente, o governo federal pediu o bloqueio do Discord no Brasil. O estopim foi uma tragédia com uma adolescente de 13 anos. Ninguém em sã consciência relativiza a morte de uma criança, mas transformar a ferramenta em ré é confundir o sintoma com a doença, e pior, é uma solução que tende a nos deixar menos seguros e não mais.
O Discord é usado por mais de 200 milhões de pessoas no mundo todo, e ainda assim a maior parte dos pais não sabe que a ferramenta existe – e esse é o verdadeiro ponto cego. O problema nunca foi só a plataforma, mas sim a distância entre “onde os filhos estão” e “o que os pais enxergam”. Bloquear o aplicativo não fecha essa distância, apenas empurra a criança para o próximo ambiente, que os pais também não conhecem.
Sun Tzu, em A Arte da Guerra, ensinou sobre a importância de sempre deixar uma saída ao inimigo cercado. Um adversário sem alternativa luta com a fúria do desespero, ataca por onde não se espera e aumenta as próprias chances de sucesso. Essa lógica milenar explica com precisão por que bloquear plataformas raramente entrega o resultado que promete.
Pense em dois cenários. O primeiro é o do profissional comum. Ele precisa cumprir uma tarefa de rotina, mas boa parte do que precisa fazer está bloqueada por questões de segurança. O que ele faz? Improvisa, usa criatividade para entregar o resultado esperado, porque se não entregar pode ser demitido.
Esse improviso não é rastreado pelos times de segurança. Ou seja, o excesso de restrição não eliminou o risco, apenas empurrou o risco para a sombra, para fora do radar de quem deveria estar de olho.
O segundo cenário é o dos criminosos. Restrinja os canais e eles vão migrar para outros, e o mundo digital é vasto. O pedófilo, o agressor, o predador não desaparecem quando um aplicativo sai do ar, eles apenas somem do lugar onde sabíamos que estavam.
Trocamos um ambiente conhecido e fiscalizável por dezenas de ambientes desconhecidos e invisíveis, e do ponto de vista de quem investiga isso é um retrocesso.
Vale também o exercício de lógica: ao aceitarmos que o meio (e não quem o usa), é o responsável pelo resultado, precisaríamos ser coerentes até o fim. Deveríamos banir os automóveis, afinal alguns são usados para atropelar pessoas, e sem carros não haveria atropelamentos. Deveríamos banir a telefonia, para que ninguém mais espalhe mentiras por ligação. Deveríamos fechar ruas e calçadas, porque é nelas que acontecem os assaltos.
A lista é absurda de propósito, porque a premissa também é. E ainda assim é exatamente essa a lógica que boa parte da segurança da informação continua aplicando. “Se bloquearmos está seguro”, pensam, porque se a pessoa não tem acesso. Parece razoável, mas não é.
Há um detalhe que torna esse debate ainda mais revelador. O Decreto nº 12.975, de 20 de maio de 2026, editado pelo próprio governo, estabelece que a existência isolada de um crime não basta para responsabilizar uma plataforma. É preciso comprovar uma falha sistêmica, ou seja, a ausência crônica de mecanismos de prevenção e resposta.
Em outras palavras, a legislação brasileira já rejeita a lógica do bloqueio imediato por um caso isolado, por mais grave que seja. O caminho legal aponta para fiscalização e responsabilização, não para o apagamento.
Se o objetivo é proteger crianças – e deve ser -, a resposta não é apagar o território onde os criminosos atuam e deixá-los livres para se reorganizarem no escuro. Tudo começa dentro de casa, com pais que sabem onde os filhos estão, e continua nas plataformas, com o que a lei já exige: rastreabilidade, verificação de idade que funcione de verdade, moderação desenhada para proteger e cooperação real com as autoridades.
Dá trabalho, é menos vistoso que um anúncio de bloqueio, mas é o que de fato reduz risco. Ao cercar o inimigo sem deixar saída nós não o derrotamos, apenas o obrigamos a nos surpreender, e garantimos que não vamos ver o golpe chegar.
Luiz Milagres é especialista em riscos cibernéticos e credibilidade digital. Com passagens por EY, KPMG, Porto Seguro e ex-professor da FIAP, atua como consultor e palestrante focado em cibersegurança, inteligência artificial e proteção da reputação no ambiente digital.