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Computadores quânticos desafiam a segurança do blockchain

Em entrevista ao AIoT Brasil, Rafael Silva, diretor e arquiteto de soluções de segurança da Futurex, empresa especializada em criptografia, fala sobre a ameaça aos algoritmos criptográficos atuais

18/09/2026Por Daniel dos Santos

Computadores quânticos desafiam a segurança do blockchain
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Para o usuário comum de tecnologia, pode parecer muito cedo para falar sobre criptografia quântica e, principalmente, criptografia pós-quântica. Afinal, os computadores quânticos estão muito longe de estarem disponíveis em larga escala. Mas muita gente já está trabalhando com isso e ganhando muito dinheiro. Segundo um estudo da Fortune Business Insights, o mercado global de criptografia quântica foi de 270 milhões de dólares em 2025, número que deve chegar a 345 milhões em 2026 e a nada menos que a 2,2 bilhões de dólares em 2034.

O AIoT Brasil conversou com Rafael Silva, diretor técnico e arquiteto de soluções da Futurex, empresa que há mais de 40 anos trabalha com criptografia, com mais de 15.000 clientes, oferecendo soluções empresariais de segurança de dados, para entender esse mercado e os riscos associados.

AIoT Brasil – Qual é a sua trajetória profissional e como você se tornou um especialista em criptografia quântica?

Rafael Silva, Futurex – Atualmente, atuo como Diretor Técnico e Arquiteto de Soluções da Futurex no Brasil, trabalhando diretamente com organizações no desenvolvimento e na implementação de infraestruturas criptográficas que apoiam a segurança, a conformidade e o crescimento dos negócios.

Ao longo da minha carreira, tenho trabalhado extensivamente com segurança da informação, criptografia, ambientes de pagamentos e infraestrutura de tecnologia. Essas experiências me proporcionaram uma visão tanto técnica quanto prática dos desafios que as organizações enfrentam para proteger dados sensíveis e gerenciar chaves criptográficas em escala.

Também acumulei quase 30 anos de experiência em aplicações e serviços de pagamento, incluindo ambientes de POS e colaboração com fabricantes de PinPad. Essa trajetória me permitiu acompanhar de perto a evolução dos meios de pagamento, os requisitos de segurança associados a transações eletrônicas e a importância de proteger chaves, credenciais e dados sensíveis em ecossistemas cada vez mais conectados.

Na minha função atual, isso é particularmente importante porque a criptografia já não está restrita a um pequeno número de sistemas altamente especializados. Ela está se tornando um componente fundamental da infraestrutura digital, desde pagamentos e ambientes de nuvem até identidades digitais, certificados e tecnologias emergentes, como a tokenização.

AIoT Brasil – O blockchain foi construído com base na premissa de que a criptografia utilizada para proteger transações e ativos digitais é extremamente difícil de quebrar. O avanço dos computadores quânticos poderia desafiar essa premissa? Na prática, quais são os principais riscos?

Rafael Silva, Futurex – Sim, potencialmente. A segurança do blockchain depende fortemente de mecanismos criptográficos, especialmente assinaturas digitais e criptografia de chave pública. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia, no futuro, comprometer alguns dos algoritmos amplamente utilizados atualmente.

No entanto, isso não significa que o blockchain se tornará inseguro de repente ou que os computadores quânticos estejam prestes a quebrar as criptomoedas. A questão é que alguns dos fundamentos criptográficos utilizados hoje precisarão evoluir.

No caso dos ativos digitais, uma preocupação importante é a proteção das chaves privadas e das assinaturas digitais. Se os algoritmos que as protegem se tornarem vulneráveis, um invasor poderia, potencialmente, se passar por um proprietário legítimo ou autorizar transações.

Portanto, o desafio prático não é prever uma data exata para o chamado “Q-Day”, mas garantir que a infraestrutura criptográfica possa evoluir antes que os algoritmos atuais se tornem vulneráveis.

 AIoT Brasil – Existe uma estimativa de quando os computadores quânticos terão capacidade suficiente para comprometer os algoritmos criptográficos utilizados atualmente? As empresas têm uma janela de tempo segura para realizar essa transição?

Rafael Silva, Futurex – Não existe uma data confiável. As estimativas variam significativamente porque a construção de um computador quântico criptograficamente relevante exige avanços não apenas no número de qubits, mas também em correção de erros, estabilidade e escalabilidade.

Essa incerteza é justamente uma das razões pelas quais as organizações não devem tratar essa transição como algo que pode ser adiado até uma determinada data.

A migração de uma infraestrutura criptográfica pode levar anos. As organizações precisam identificar onde a criptografia está sendo utilizada, entender quais sistemas dependem de algoritmos vulneráveis, avaliar as dependências com parceiros e fornecedores e desenvolver planos de migração.

Por isso, em vez de pensar em uma “janela segura”, as organizações deveriam pensar em tempo de preparação. Quanto antes compreenderem seu ambiente criptográfico, mais controlada e menos disruptiva poderá ser a transição.

AIoT Brasil – “Interceptar agora, descriptografar depois” é uma ameaça real? Como esse tipo de ameaça funciona e por que dados e ativos protegidos hoje já podem estar em risco, mesmo que ainda não existam computadores quânticos capazes de quebrar essa criptografia?

Rafael Silva, Futurex – Sim. Essa ameaça também é frequentemente chamada de “harvest now, decrypt later”. A ideia é relativamente simples: um invasor captura informações criptografadas hoje e as armazena na expectativa de que tecnologias futuras permitam descriptografá-las.

Isso é particularmente relevante para informações que precisam permanecer confidenciais por muitos anos, como dados governamentais, propriedade intelectual, registros financeiros ou outras informações corporativas sensíveis.

É importante fazer uma distinção: essa ameaça diz respeito principalmente a informações criptografadas que precisam permanecer protegidas por longos períodos. Em ambientes de blockchain e ativos digitais, o risco quântico também pode envolver assinaturas digitais, mecanismos de autenticação e chaves privadas.

Portanto, as organizações precisam considerar não apenas o nível de segurança de suas informações hoje, mas também por quanto tempo essas informações precisarão permanecer protegidas.

AIoT Brasil – No caso específico das criptomoedas e da tokenização de ativos, quais elementos da infraestrutura blockchain são mais vulneráveis à computação quântica? O problema se limita às transações ou também pode afetar carteiras, chaves privadas, contratos inteligentes e outros componentes?

Rafael Silva, Futurex – A questão vai além das transações. Os ecossistemas blockchain dependem de várias camadas de criptografia, incluindo chaves privadas e públicas, assinaturas digitais, carteiras, mecanismos de identidade, canais de comunicação e a infraestrutura que dá suporte às redes blockchain.

As chaves privadas são particularmente importantes porque estabelecem o controle sobre os ativos digitais. Se os algoritmos de assinatura associados a essas chaves se tornarem vulneráveis, as consequências poderiam incluir transações não autorizadas ou falsificação de identidade.

Os contratos inteligentes, por si só, não são necessariamente “quebrados” pela computação quântica, mas interagem com identidades criptográficas, assinaturas ou sistemas externos que podem depender de algoritmos vulneráveis.

Por isso, as organizações precisam analisar toda a arquitetura criptográfica, em vez de se concentrarem apenas em um algoritmo ou em um componente específico do blockchain.

 AIoT Brasil – Como podemos falar em criptografia pós-quântica quando a computação quântica ainda está em seus estágios iniciais? Quando ela se tornará uma realidade amplamente adotada?

Rafael Silva, Futurex – Porque as transições criptográficas levam tempo. Não precisamos esperar pela existência de um computador quântico criptograficamente relevante para começar a nos preparar.

A criptografia pós-quântica já está passando da fase de pesquisa para a implementação. O NIST já padronizou os primeiros algoritmos criptográficos pós-quânticos, oferecendo às organizações e aos fornecedores de tecnologia uma base clara para iniciar essa transição.

A adoção mais ampla ocorrerá de forma gradual. Algoritmos tradicionais e pós-quânticos provavelmente coexistirão durante um período considerável, enquanto as organizações testam a interoperabilidade, atualizam aplicações e infraestruturas e substituem sistemas legados.

O ponto importante é que a preparação para a segurança pós-quântica deixou de ser apenas teórica. As organizações já podem começar a compreender suas dependências criptográficas e projetar sistemas capazes de suportar novos algoritmos.

 AIoT Brasil – O mercado de tokenização pode alcançar trilhões de dólares até 2030, enquanto o Brasil avança na adoção institucional de ativos digitais. O crescimento desse mercado aumenta a urgência da migração para a criptografia pós-quântica? Existe o risco de a expansão dos ativos digitais avançar mais rapidamente do que a capacidade de protegê-los?

Rafael Silva, Futurex – O crescimento da tokenização torna o planejamento criptográfico de longo prazo cada vez mais importante. À medida que mais ativos, identidades, transações e processos de negócios se tornam digitais, aumenta também a quantidade de infraestrutura dependente de criptografia.

O Brasil possui um ecossistema financeiro e de pagamentos sofisticado e está explorando ativamente novos modelos de ativos digitais e tokenização. Isso cria uma oportunidade para incorporar práticas criptográficas mais robustas enquanto essa infraestrutura ainda está evoluindo. O objetivo não deve ser desacelerar a inovação por causa do risco quântico, mas garantir que essa inovação seja construída sobre uma infraestrutura capaz de evoluir.

Sistemas desenvolvidos hoje podem permanecer em operação por muitos anos. Incorporar criptoagilidade desde o início pode ser significativamente mais simples do que tentar redesenhá-los posteriormente sob pressão.

 AIoT Brasil – A Futurex defende a criptoagilidade como parte fundamental dessa transição. O que significa ser “criptoágil” na prática e por que essa capacidade será tão importante para empresas que precisam substituir algoritmos sem interromper suas operações?

Rafael Silva, Futurex – Criptoagilidade é a capacidade de identificar, gerenciar e substituir algoritmos criptográficos, chaves, certificados e políticas sem precisar redesenhar sistemas inteiros ou interromper operações críticas.

Na prática, isso começa com visibilidade. As organizações precisam saber onde a criptografia está sendo utilizada, de quais algoritmos e chaves dependem, quem os controla e quais aplicações seriam afetadas por uma mudança.

O passo seguinte é contar com uma arquitetura que permita que esses componentes criptográficos evoluam de forma controlada.

A migração pós-quântica é um excelente exemplo, mas a criptoagilidade vai além da computação quântica. Os padrões criptográficos mudam, vulnerabilidades são descobertas, certificados expiram, regulamentações evoluem e as necessidades dos negócios se transformam. Organizações capazes de adaptar sua criptografia de maneira eficiente estarão mais bem preparadas para responder a todos esses cenários.

 AIoT Brasil – Os HSMs da Futurex já oferecem suporte a algoritmos pós-quânticos padronizados pelo NIST. Como essa tecnologia funciona e como os HSMs podem ajudar as empresas a proteger chaves, dados e assinaturas digitais durante a transição para novos padrões criptográficos?

Rafael Silva, Futurex – Os Hardware Security Modules, ou HSMs, fornecem um ambiente protegido para gerar, armazenar e utilizar chaves criptográficas. Em vez de expor chaves sensíveis a sistemas de uso geral, as operações criptográficas podem ser realizadas dentro de um ambiente protegido e controlado.

À medida que as organizações avançam na transição para a criptografia pós-quântica, os HSMs podem fornecer uma base centralizada para o gerenciamento tanto dos algoritmos e chaves existentes quanto dos novos. Os HSMs da Futurex oferecem suporte a algoritmos pós-quânticos padronizados pelo NIST, permitindo que as organizações comecem a testar e implementar PQC, mantendo ao mesmo tempo a segurança e a governança necessárias para operações criptográficas críticas.

Isso é importante porque a transição não acontecerá da noite para o dia. Para muitas organizações, a criptografia clássica e a pós-quântica coexistirão durante algum tempo. A infraestrutura, portanto, precisa ser capaz de acompanhar essa evolução sem criar silos de segurança separados ou complexidade operacional desnecessária.

 AIoT Brasil – O NIST recomenda que as organizações comecem agora a avaliar riscos, capacitar suas equipes e planejar a migração, com uma eliminação gradual dos algoritmos atuais a partir de 2030. O que as empresas deveriam começar a fazer hoje para evitar serem pegas despreparadas?

Rafael Silva, Futurex – O primeiro passo é a descoberta. As organizações não podem migrar uma criptografia que nem sequer sabem que possuem. Elas devem criar um inventário de seus ativos e dependências criptográficas: algoritmos, chaves, certificados, aplicações, APIs, dispositivos, ambientes de nuvem e sistemas de terceiros.

A partir daí, podem identificar quais sistemas dependem de algoritmos que eventualmente precisarão ser substituídos e priorizá-los de acordo com o risco, a sensibilidade dos dados e sua vida útil prevista. As organizações também devem começar a testar algoritmos pós-quânticos, avaliar o nível de preparação de seus fornecedores, capacitar suas equipes técnicas e incorporar a criptoagilidade aos novos projetos.

O objetivo não é substituir tudo imediatamente. É evitar chegar ao ponto em que a migração se torne urgente e as organizações descubram que nem sequer sabem onde estão suas dependências criptográficas.

 AIoT Brasil – Os HSMs têm sido tradicionalmente associados a grandes bancos e empresas altamente regulamentadas. A oferta de HSM-as-a-Service baseada em nuvem pode democratizar esse nível de proteção? Quais empresas brasileiras, além das instituições financeiras, deveriam considerar essa tecnologia?

Rafael Silva, Futurex – Sem dúvida. Os serviços de HSM baseados em nuvem podem reduzir significativamente algumas das barreiras de infraestrutura e operação que, historicamente, tornavam os ambientes criptográficos dedicados mais acessíveis às organizações de grande porte.

O HSM-as-a-Service permite que as organizações utilizem recursos criptográficos seguros por meio de um modelo baseado em nuvem, mantendo controles robustos sobre o gerenciamento de chaves e as operações criptográficas. Também pode oferecer maior flexibilidade e escalabilidade à medida que a demanda muda.

No Brasil, isso é relevante muito além do setor bancário. Fintechs, empresas de pagamentos, plataformas de comércio eletrônico, organizações de saúde, operadoras de telecomunicações, órgãos governamentais, empresas de tecnologia e organizações que gerenciam identidades digitais ou dados sensíveis podem ter casos de uso para a proteção baseada em HSM.

Esse tema também se conecta diretamente à LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados do Brasil, que estabelece obrigações para o tratamento e a proteção de dados pessoais, como números de identificação, passaporte, endereço e outras informações sensíveis. Para empresas que lidam com grandes volumes de dados pessoais, o uso de HSMs pode fortalecer a proteção de chaves criptográficas, apoiar controles de acesso e contribuir para uma postura mais robusta de conformidade e segurança.

No final, a questão não é simplesmente se uma organização é ou não um banco. A questão é se o seu negócio depende de chaves criptográficas, confiança digital, informações sensíveis ou transações digitais seguras.

 AIoT Brasil – Como você enxerga o futuro da criptografia?

Rafael Silva, Futurex – A criptografia será cada vez mais invisível para os usuários, mas cada vez mais importante para as organizações.

À medida que os ecossistemas digitais se tornam mais interconectados, as organizações precisarão gerenciar um número muito maior de chaves, certificados, identidades de máquinas, aplicações, ambientes de nuvem e ativos digitais. Ao mesmo tempo, os padrões criptográficos continuarão evoluindo.

A criptografia pós-quântica é uma parte importante desse futuro, mas o desafio mais amplo é a capacidade de adaptação. As organizações precisam de infraestruturas criptográficas capazes de evoluir à medida que tecnologias, ameaças, regulamentações e padrões mudam.

Por isso, acredito que o futuro da criptografia será definido não apenas por algoritmos mais robustos, mas também por maior visibilidade, gerenciamento centralizado, automação e criptoagilidade. As organizações que se prepararem para as mudanças estarão em uma posição muito mais sólida do que aquelas que esperarem até que a mudança se torne urgente.

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