Excesso de uso de IA como tema afasta o público dos cinemas
Depois do sucesso dos primeiros filmes, parece que o público já se cansou dos roteiros em que a tecnologia cria cenários distópicos
10/02/202628/04/2026

*Foto: cena de “Another Detail”, de Denis Larzillière/Reprodução
Por Ricardo Marques da Silva
Há duas semanas, os organizadores do conceituado Festival de Cinema de Cannes, que chega à 76ª edição, haviam vetado a participação de filmes produzidos com inteligência artificial na disputa da Palma de Ouro, o prêmio máximo do evento. Porém, bastaram poucos dias para que, na mesma cidade francesa, a tecnologia voltasse a ser o principal tema em discussão, durante os dois dias em que se realizou a segunda edição do Festival Mundial de Cinema de IA (WAIFF), em 21 e 22 de abril.
Foi um embate entre dois lados claramente opostos: os defensores dos filmes feitos apenas com pessoas de carne e osso, para quem “a IA imita muito bem, mas nunca trata de emoções profundas”, contra um número crescente de realizadores e grandes empresas de tecnologia que defendem “o futuro irreversível do cinema”. Por enquanto tudo indica que ambas as partes ainda terão de conviver por muito tempo, mas alguns dados do evento de IA dão pistas claras do que acontece atualmente.
Para começar, chamou atenção o volume de inscrições no festival, que chegaram a 1.500 na edição inaugural, no ano passado, em Nice, e agora cresceram para cerca de 7 mil, provenientes de 80 países, das quais 1.300 vieram da Coreia do Sul, em contraste com os raros filmes dos Estados Unidos. Também houve o apoio de celebridades como o veterano diretor francês Claude Lelouch, que tem um Oscar de melhor filme estrangeiro com “Um homem, uma mulher” e a Palma de Ouro em Cannes, e a estrela chinesa Gong Li, que presidiu o festival de IA.
Aos 88 anos, Lelouch anunciou que está usando IA para fazer seu 52º filme e afirmou: “Recuperei minha infância”. Esse entusiasmo com a tecnologia, cujo potencial de criação apenas começa a ser explorado, explica-se também pela considerável redução de custos que proporciona na produção de filmes.
Muitos cineastas desconhecidos usaram a IA para criar filmes com orçamentos bem menores, e, de acordo com o jornal britânico The Guardian, houve alguns sucessos inesperados, como um curta-metragem “comovente” do suíço-italiano Dario Cirrincione, de 22 anos, “que explorou a qualidade estranhamente perturbadora e dissociada do vídeo gerado por IA para expressar como a demência poderia ser sentida”. A sequência de IA em seu filme custou pouco mais de US$ 500, enquanto os efeitos especiais convencionais teriam custado perto de US$ 25 mil, disse Cirrincione.
De qualquer maneira, a polêmica é inevitável e parece longe de terminar. Nos bastidores, segundo o Guardian, falava-se que não deve demorar muito para que o festival de cinema de IA em Cannes supere seu rival analógico. “Os estúdios de Hollywood estão interessados em usar IA para terem ‘mais chances de sucesso’, produzindo vários filmes híbridos ou com IA, com orçamentos de US$ 50 milhões, em vez de apenas um filme convencional de US$ 200 milhões, afirmou Joanna Popper, executiva de cinema e tecnologia de Los Angeles e uma das juradas. A Paramount, por exemplo, sob a direção de David Ellison, filho do bilionário da tecnologia Larry Ellison, declarou que a IA afetará todos os aspectos dos seus negócios”, disse o jornal, prenunciando que logo a IA estará, fatalmente, “em um cinema perto de você”.
O vencedor dessa segunda edição do festival foi o curta metragem “Costa Verde”, do francês Léo Cannone, que, em pouco mais de 11 minutos, relembra um verão de sua infância na Córsega, com os avós.
Você também pode assistir a outros filmes finalistas no site do festival.
#Cannes#cinema de IA#filmes produzidos com inteligência artificial

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