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A “bolha da IA”: marketing ou engenharia?

Se você está esperando a tal da bolha da IA estourar para abraçar de vez essa tecnologia ou entrar de cabeça nesse jogo, corre o risco de ficar assistindo à História ser escrita pelos outros. De novo

13/03/2026Por Eduardo Vieira

A “bolha da IA”: marketing ou engenharia?
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A pergunta que eu mais ouço no dia a dia é: “Estamos ou não vivendo uma bolha de IA?”. Já a segunda é naturalmente subsequente, inevitável e chega (invariavelmente) antes da primeira resposta: “Quando ela vai estourar, hem?”.O leitor deste AIoT Brasil  sabe que vivemos um momento de ruído intenso. Como alguém que passou as últimas três décadas testemunhando os “Bastidores da Internet” e há cinco anos vivencia o cotidiano da indústria de venture capital, consigo constatar facilmente que a “bolha da IA” se tornou o clichê favorito das mesas de jantar e das rodas de conversa de todos os eventos corporativos do momento, repletas de analistas de curto prazo, em sua maioria com uma vocação irremediável para cravar o Apocalipse Tech.

Mas se você me perguntar se estamos vivendo um 1999 tardio, minha resposta será um “não” categórico. E o motivo é simples: o que estamos presenciando em IA não é uma especulação sobre o futuro, mas uma reconstrução profunda do presente.

Convivemos hoje com dois tipos de IA, numa situação típica do “abismo da implementação” pelo qual passa toda tecnologia que se torna mainstream. O primeiro tipo é o que o público vê nos ChatGPTs gratuitos da vida – uma IA otimizada para ser amigável, rápida e criativa, sacrificando a verdade em favor da fluência.

São modelos “puros” sem camadas de verificação externa, baseados em estatísticas prováveis, o que gera as famosas alucinações e casos absurdos – como o do advogado de Nova York que usou a IA para escrever uma petição e recebeu como subsídio seis casos jurídicos inventados. Ou os frequentes estudos que mostram que a IA não funciona para emergências médicas, tem viés racial ou falha na hora de recomendar a caderneta de poupança como uma boa opção de investimento.

Mas não é essa IA que está precificada no mercado. O que a indústria investe é a IA “profissional”, baseada num arquitetura completamente diferente – que não quer conversar com você, mas está preocupada em resolver problemas de otimização que humanos levariam décadas para decifrar.

Em outras palavras, se o público em geral interage com o “marketing” da IA, a indústria convive no dia a dia com a “engenharia” da Inteligência Artificial. A discussão sobre a bolha da IA depende da sua visão de mundo em relação a essas duas realidades. Qual delas você vive, a do marketing ou a da engenharia?

O erro fundamental de quem só enxerga hype é olhar para a IA apenas como uma sequencia de novas funcionalidades. Jensen Huang  (CEO da Nvidia) tem sido vocal sobre isso e eu concordo plenamente: o que está acontecendo vai muito além do “app bonitinho da semana”. Estamos testemunhando a obsolescência programada de trilhões de dólares em infraestrutura de computação baseada exclusivamente em CPUs.

Nas últimas seis décadas, o mundo rodou sobre uma computação de propósito geral. Mas chegamos ao limite da Lei de Moore e, para continuar avançando, precisamos de uma computação acelerada. Quando empresas investem bilhões em chips da Nvidia, elas não estão apenas comprando hardware; estão trocando o motor de um transatlântico em pleno movimento.

Historicamente, as revoluções industriais foram marcadas pela produção de algo físico: energia a vapor, eletricidade, bens de consumo. O que vejo refletido nas teses que analisamos é que os data centers deixaram de ser um custo pesado de TI para se tornarem um novo tipo fundamental de fábrica, cuja matéria-prima é o dado – e o produto final é a IA generativa. Diferente da época da bolha pontocom, onde se queimava dinheiro esperando que os usuários chegassem à Internet, as empresas que estão investindo em infraestrutura hoje já têm uma demanda reprimida e gigantesca por essa nova “eletricidade”.

Sim, estamos falando de trilhões de dólares necessários. O que me leva à terceira pergunta que mais escuto: “Onde está o retorno desse investimento?”. Eu respondo com o que vejo no front: o ROI não está apenas na criação de novos unicórnios ou “campeões da IA”, mas também na eficiência brutal dos incumbentes. Quando uma empresa de codificação aumenta sua produtividade em 50%, quando o atendimento ao cliente é automatizado com uma precisão nunca vista, ou quando o Jack Dorsey troca 4 mil vagas de trabalho por agentes de IA, o valor é extraído na hora.

IA não é um destino: é infraestrutura. Se o “erro” da bolha de 2000 foi construir estradas de fibra óptica para cidades que ainda não existiam, hoje as cidades já estão superpopulosas e as estradas antigas não dão mais conta do tráfego. Estamos apenas pavimentando o que já é necessário.

Sim, haverá correções. Alguns ciclos (alguns leves, outros pesados) de desvalorizações de ações, como vimos recentemente com as empresas de software.

Sim, muitas startups vão desaparecer. Provavelmente a maioria.

Sim, alguns valuations estão altos demais e não respeitam uma régua comum – pois regras únicas ainda não existem em IA.

Mas esses são reflexos do ciclo natural de um mercado em formação, não o estouro de uma bolha sistêmica.

O que mais me fascina (e me causa ansiedade, medo e um pacote completo de emoções incoerentes e intensas) é que estamos vendo somente o início da aplicação da IA na economia real. Hoje há pesados investimentos nas camadas do silício, da infraestrutura, das LLMs e das clouds. Na camada de applications, estamos saindo da era das ferramentas para a dos agentes. O que virá amanhã?

Longe de ter a resposta, só tenho a certeza de que estamos redesenhando a arquitetura da civilização moderna. Numa revolução que faz com que o surgimento da Internet ou dos smartphones pareçam coisas menores.

Se você está esperando a tal da bolha da IA estourar para abraçar de vez essa tecnologia ou entrar de cabeça nesse jogo, sinto dizer: você corre o risco de ficar assistindo à História ser escrita pelos outros. De novo.

Eduardo Vieira é sócio do SoftBank na América Latina, conglomerado japonês que detém o maior fundo de investimento em tecnologia do mundo, com mais de US$ 150 bilhões alocados em empresas como OpenAI, Arm e ByteDance, entre outras. Antes disso, foi sócio-fundador da Esfera Brasil, sócio do grupo WPP, CEO para a América Latina das agências Hill+Knowlton Strategies e Ogilvy PR e sócio-fundador da agência Ideal. É autor do livro “Os Bastidores da Internet”, além de mentor e investidor-anjo de algumas startups.

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